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CONTO UM
PARTE DOIS

Os Mercadores de Almas

Galope, pocotó, pocotó!

Os cascos castigavam a terra sem dó!

Salah-Aldun se sentia responsável por seus homens!

Não ouviu seu companheiro, seu amigo, foi tudo suas ordens!

Galope, pocotó, pocotó!

Nada mudaria sua culpa. Tinha que desatar o nó!

O grupo rasgou a noite como suas lâminas fazem com seus oponentes!

Partiram raivosos, rilhando os dentes!

A isca tinha que servir,

Para o feiticeiro atrair!

Galope, pocotó, pocotó!

Dos males tinha que vir o menor.

Sabendo que a morte sempre alcança

Pelo menos tinham que ter sua vingança!

A noite desceu, o sol nasceu e a lua ascendeu!

E enfim, o mostro apareceu!

Galope, pocotó, pocotó!

Os cavalos estacaram num comando só!

E quem teria pena dos homens que matam sem dó?


- Sim, eles encontraram o Al-Ternah!


***


O quarteto desceu de suas montarias quando avistaram os juncos. Sua folhagem longa cobria o tamanho de um homem adulto. Sacaram as armas e andaram lentamente protegendo seus flancos. Salah-Aldun levava uma tocha em uma mão e a espada na outra. A chama amarelada oscilava o caminho entre a escuridão e a revelação, quando girava de lado era impossível não sentir o coração gelar ao ver os companheiros o fitar com aqueles olhos demoníacos. O brilho carmesim cintilava com o fogo bruxuleante.

O beduíno respirou fundo e voltou sua atenção para o caminho adiante, o chão, normalmente seco e rachado, agora estava úmido e, a medida em que avançava, sentia seus pés afundando com mais facilidade. O rio estava próximo, podia ouvir sua constante passagem descendo para o sul, conseguia até imaginar seu brilho prateado serpenteando até onde a vista alcançasse. Aquele rio era um milagre, em meio a uma completa aridez, água trazia vida e esperança para muitas cidades do deserto. Entretanto, milagres não veem de graça. Naquelas mesmas águas vivia uma criatura horrenda, uma aberração proveniente dos tempos de corrupção da aurora do mundo de Awnya. O povo do deserto o chama de Al-Ternah!

Na margem do rio, o líder do grupo pegou uma pedra atirou até o meio do leito. A água a engoliu e produziu ondulações circulares. Com um aceno de cabeça ordenou que os homens ficassem a postos, a criatura poderia surgir a qualquer momento. O grupo prendeu a respiração e apertou o cabo de suas cimitarras, olharam para os lados e para frente ansiosos pelo perigo iminente. Nada.

As folhas dos juncos farfalharam em compasso com o deslizar das águas critalinas. Se não fosse pela tensão, seria um ótimo lugar para repousar. Um barulho calmo e constante, uma brisa fria e o céu estrelado. Perfeito para um descanso reparador, mas nada disso chamava a atenção do grupo naquele momento, suas atenções estavam voltadas para ondulações incomuns no rio ou talvez, uma movimentação em ponto específico da vegetação. Todavia, até o momento, nada.

Salah-Aldun pegou outra pedra e a atitou no leito, o barulho do mergulho bateu abafado e sumiu na noite. Ele esticou a tocha para frente e deixou a arma em diagonal, imaginou que um corte rápido e seco seria o bastante para se posicionar e analisar o perigo que poderia lidar. Porém, a verdade é que nunca tinha encontrado a fera. Sabia que as histórias davam conta de que a criatura morava naquele rio e que, não raras às vezes, devorava animais e pessoas que se aventuravam pelas margens cujos cobriam homens. Poderia ser qualquer coisa. Olhou para os companheiros e pesou o olhar em Zayn, não tinha escutado o seu conselho e, a partir de agora, tudo seria sua culpa. Apurou a audição e esperou por alguma resposta. Nada.

Ahmed se aproximou da margem do rio, inclinou o corpo e se assustou com a figura que o espiara de volta. Era ele, um grande espectro com dois pontos rubros no lugar dos olhos. Irritado com o seu destino passou a espada no espelho d’água como se aquilo pudesse trazer a sua imagem de volta. Porém, ao contrário disso, trouxe uma enorme boca que emergiu e o engoliu de uma vez.

O trio recuou se posicionando para o combate enquanto analisavam a criatura que surgira de súbito. Al-Ternah era um enorme crocodilo com dois metros de altura por quarenta de comprimento. Apenas sua cabeça e as patas dianteiras estavam do lado de fora, o que já era o bastante para quebrar a coragem de qualquer um. Mas não daqueles homens cuja vida dependia aquela batalha.

Salah-Aldun foi o primeiro a atacar, berrou atiçando besta com a tocha e desferindo golpes com a espada. Depois dele, os outros partiram para o ataque, mas forma surpreendidos com a couraça dura do oponente. Este que, sem se importar com golpes, saiu da água por completo, girou a cauda e acertou Zayn e Jamal lançando-os contra os juncos. O líder conseguiu rolar por baixo e escapar da pancada. Aproveitando o embalo, cravou a espada no couro e escalou o crocodilo. A pele na laterak era mais macia.

- Acertem o lado dele! – berrou tentando se manter sobre o inimigo.

A dupla se levantou e correu gritando, quando chegaram próximo da bocarra cada um seguiu para um lado. Al-Ternah ficou indeciso e deixou os flancos expostos, o suficiente para receber cortes dos dois lados.

A fera urrou tão alto que seu gemido poderia ser ouvido a quilômetros. Cheio de ódio, balançou a cauda e espanou um de cada lado acertando apenas Jamal. Zayn se jogou para debaixo dele. Do alto, Salah-Aldun correu sobre as costas procurando um ponto fraco, mas nada lhe chamou a atenção, ao chegar no pescoço o monstro se sacudiu e ergueu a bocarra, ali a pele também era mais sensível. O beduíno se jogou e estocou a espada.

Outro urro, desta vez ele se jogou no chão e rolou, quase esmagando Zayn que estava embaixo dele, mas conseguiu escapar, pois no exato momento tinha tentado um corte por baixo que acabou acertando o ar. Já o líder do grupo não teve a mesma sorte e acabou sendo arremessado para a água. Al-Ternah levantou rápido e correu para mergulhar, porém, ao se virar, deu oportunidade para que Zayn e Jamal acertassem poderosos golpes na lateral de seu corpo e próximo à pata. A besta rugiu e girou rápido a cauda, arremessando os dois para o rio.

O trio estava submerso, a profundidade era muito maior do que imaginavam e, de algum modo, eles afundavam como se fossem feitos de pedra. De repente, um ruído veio do alto levantado bolhas e provocando uma grande agitação na água. Al-Ternah mergulhara de boca aberta. Descendo e se balançando como uma serpente em fuga, o crocodilo chegou rápido nos beduínos, que conseguiam se localizar graças aos seus olhos carmesim. Salah-Aldun tomou a frente do dos dois e se agarrou em um dos dentes da arcada inferior, depois espetou a espada por baixo, os outros dois fizeram o mesmo.

Por vários metros o monstro os arrastou em uma desesperada tentativa de soltá-los, girou, raspou no chão, ondulou, ziguezagueou, mas nada surtia o efeito esperado. Ele não contava que a determinação e o, sobrenatural vigor daqueles estranhos, dificultasse tanto a sua caçada. Logo ele que estava acostumado a resolver seus conflitos em poucos segundos. Depois tanto tentar submerso, resolveu voltar à superfície e, com pulo, estava de volta à margem. O trio girou suas espadas e puxou arrancando sangue e dor do inimigo. Este que, furioso fez um novo ataque com a cauda, mas não acertou nenhum, com o giro em falso completou um volta em si mesmo, mas no retorno abriu a bocarra e engoliu Salah-Aldun.

- Não! – berraram os dois atacando freneticamente em uma vã tentativa fazê-lo abrir a boca e cuspi-lo fora.

Al-Ternah fez um novo rodopio e acertou os dois com a cauda, ambos distraídos e com moral abalada rolaram para longe amassando vários juncos no caminho. Zayn foi o primeiro a levantar. Fincou a espada no chão e a utilizou como apoio para ficar de pé, olhou para o lado e viu Jamal tateando as costelas, possivelmente verificando se não havia quebrado nada. Entretanto, apensar de sentirem muitas dores, aquela maldição tinha lhes conferido um vigor que nunca imaginaram poder existir, o problema era: a que preço.

A recuou e ameaçou mergulhar na água, talvez para fugir, pois denotava um visível cansaço. - Não pode fugir, não com meus amigos em suas entranhas! Não com a minha cura aí pulsando em sua carcaça! – berrou Zayn.

Não sabia se a fera entedia a língua dos homens, mas, pelo menos, conseguiu de algum modo atrair a sua atenção. Al-Ternah esticou as patas e se virou para a dupla diante dele, rugiu alto escancarando a bocarra rosa cheia de dentes amarelados e pontudos, deu dois passos adiante e berrou alto. Em seguida, gritou agudo arrancando caretas dos homens que os desafiava, de repente, caiu.

- Está morto? – perguntou Jamal espetando o focinho do bicho.

- Parece que sim… – respondeu o outro fazendo o mesmo gesto.

Entreolharam e espiaram o gigante desfalecido. Duvidavam que uma coisa tão poderosa como aquela poderia ter morrido assim tão de repente, imaginavam estar ainda no início do combate. Depois de um tempo analisando-o voltaram a cutucá-lo e, desta vez, o corpo mexeu. A dupla deu um pulo para trás e esticaram as cimitarras prontos para desferir um golpe ou se utilizar de uma finta para fugir de um eventual bote. Mas nada aconteceu. Pelo menos nada do que esperavam, pois, mesmo de olhos fechados a besta movia a lateral de seu corpo até que um rasgo revelou o motivo do balanço.

- Vocês vão ficar aí olhando ou vem ajudar! – exclamou Ahmed todo sujo de uma gosma esverdeada.

Depois de Ahmed, Salah-Aldun saiu rolando um grande pedaço de carne pelo corte que fizeram, um pouco abaixo das costelas de Al-Ternah.

- Vocês estão vivos! – vibraram Zayn e Jamal ajudando a outra dupla a tirar o coração da corpo do crocodilo.

- E agora, Zayn? – perguntou Ahmed passando a mão no rosto para limpar a gosma que pingava em abundância. O lenço não saía de sua cabeça o que dificultava ainda mais sua tarefa de se limpar – o coração está aí! Onde está o desgraçado?

O outro suspirou e deu ombros. Não tinha resposta para aquela pergunta.

- Quase morremos para nada! – insistiu já com pouca paciência.

- Calma, Ahmed – interveio Salah-Aldun – Se alguém aqui tem o direito de ficar furioso esse alguém é o Zayn.

Um riso ecoou entre os juncos e o quarteto girou com as cimitarras em punho.

- Apareça! – ameaçou o líder dos bandoleiros – Aqui está o que pediu!

Uma brisa sacolejou os juntos e arranhou o espelho d’água e leves cortes que sumiram logo em seguida.

- Vamos! Não era isso que queria?

- É um covarde mesmo… – resmungou Ahmed – Apareça ou queimarei esse coração de merda!

- Você não fará isso – a voz sussurrou ao pé de seus ouvidos. Um arrepio percorreu os quatro que giraram em torno de si e não viram nada.

- Ninguém dúvida de Ahmed! - disse caminhando até a tocha que queimava solitária em ponto distante.

Todavia, antes que pudesse deixar os seus companheiros o seu lenço apertou e ele começou a ficar sem ar.

- Solte-o – berrou Salah-Aldun – Trouxemos o que você pediu! Agora liberte-nos!

A constrição folgou e Ahmed caiu de joelhos.

- Mandei fazer antes da meia-noite. Agora é tarde a maldição está feita e nada pode revertê-la!

- Desgraçado! Talvez matando-o teremos nossa liberdade de volta! – reclamou Zayn.

- Vocês não entenderam…

O homem saiu entre os juncos sorrindo sombrio. A luz das luas tocaram sua face pálida e realçaram as sombras que os envolviam.

- Vocês já estão mortos!

- Está mentindo! – berrou Jamal a imagem de sua filha em sua mente. Ela precisava dele. - Não posso estar morto! Estou aqui! Vamos desfaça logo isso!

- Ao abrir a caixa vocês venderam suas almas ao submundo, agora serão obrigados a servir qualquer um que os convoque!

- Não servimos ninguém! – Salah-Aldun ameaçou golpear o feiticeiro, mas o tecido o sufocou derrubando-o de joelhos.

- Ustafar… Onde está Ustafar? – perguntou Zayn com a voz trêmula.

Era uma alma fraca, foi despedaçado antes mesmo de virar um mercador de almas.

- Um o quê?

- Vocês são Mercadores de Almas agora. Serão pagos com sangue para trazer almas para aqueles que as encomendem – o estranho esticou a mão direita e colocou em forma de garra – E agora que cumpriram sua tarefa eu os liberto de seu contrato.

Ele fechou os dedos em punho e o quarteto sentiu o tecido apertar, depois enrolou os seus corpos e eles sumiram.


***


- Como assim sumiram? – perguntou uma senhorita de vestido rosa com detalhes em amarelo. Ela estava com uma cara interrogativa e mal acreditava que a história tinha terminado – Não pode terminar assim!

- E não termina! – Aziza pegou a garrava de vidro que estava ao lado do banco e virou. Depois de longos goles a esvaziou. Girou para baixo e encenou uma cara triste – Poderiam trazer mais vinho? Para fazer arte é preciso inspiração!

- Então, depois que sumiram, foram para onde?

- Para o inferno? Para submundo? Para lugar nenhum? Quem sabe? - deu de ombros, descruzou e cruzou a outra perna, apoiou o queixo sobre o joelho e continuou – O que se sabe é que fazendo o ritual e pagando com o sangue os Mercadores de Almas surgirão para obedecer ao mestre. E a ele somente! Uh, devo dizer que uma luta com eles não é nada fácil, não é uma experiência que eu gostaria de repetir. Só Ravel mesmo para me fazer encarar uma coisa dessas!